Trinta anos. Para quem viveu aquela época, talvez seja melhor repetir:
o Nintendo 64 já tem 30 anos.
O console chegou oficialmente ao Japão em 23 de junho de 1996 e, poucos meses depois, desembarcou no mercado norte-americano em 29 de setembro de 1996, pelo preço de US$ 199.
No Brasil, o Nintendo 64 também começou a aparecer oficialmente naquele período, distribuído pela Gradiente através da parceria Playtronic.
Mas números e datas explicam muito pouco sobre o que aquele videogame representou.
Para uma geração acostumada a atravessar fases da esquerda para a direita, havia algo quase inacreditável em pegar o controle e simplesmente caminhar em qualquer direção dentro do castelo de Super Mario 64.
Depois vieram as tardes tentando acertar um GoldenEye 007 em tela dividida.
As discussões em Mario Kart 64.
Os mistérios de The Legend of Zelda: Ocarina of Time.
As partidas de Super Smash Bros.
Pokémon Stadium.
Banjo-Kazooie.
Perfect Dark.
Star Fox 64.
E aquele controle que parecia ter sido criado para uma pessoa com três mãos.
Três décadas depois, o Nintendo 64 continua sendo uma das máquinas mais peculiares já produzidas pela Nintendo.
E existem bons motivos para isso.
1. Super Mario 64 mostrou como poderíamos jogar em 3D

Hoje é natural movimentar um personagem livremente por um ambiente tridimensional.
Em 1996, não era.
Super Mario 64 ajudou a estabelecer uma linguagem que seria utilizada por inúmeros jogos 3D nas décadas seguintes.
O castelo da Princesa Peach funcionava como uma grande área central, enquanto os quadros levavam Mario para mundos que podiam ser explorados com relativa liberdade.
Mais importante ainda era a sensação de controlar Mario.
Correr em círculos. Caminhar lentamente. Saltar para diferentes direções. Dar um salto triplo. Mergulhar. Escalar. Nadar.
Tudo isso utilizando um controle analógico que, para muita gente, também era uma novidade.
O impacto foi tão grande que, 30 anos depois, Super Mario 64 continua sendo uma referência inevitável quando se discute a transição dos videogames para mundos tridimensionais.
2. A alavanca analógica virou protagonista
Basta olhar para praticamente qualquer controle moderno.
Duas alavancas analógicas estão ali.
O Nintendo 64 surgiu em um período no qual o direcional digital ainda era a maneira mais comum de controlar personagens nos consoles.
Seu controle colocou uma alavanca analógica bem no centro do projeto, permitindo diferentes intensidades e direções de movimento.
Mario podia andar lentamente ou correr dependendo da inclinação.
Era perfeito para aquele novo mundo 3D.
O formato de três pontas do controle, por outro lado, continua gerando piadas três décadas depois.
A ideia era permitir diferentes maneiras de segurá-lo dependendo do jogo.
Na prática, quase todo mundo acabou utilizando principalmente a empunhadura central e a direita.
Estranho? Bastante.
Inesquecível? Sem dúvida.
3. Quatro entradas de controle mudaram as reuniões em casa
O Nintendo 64 não precisava de um acessório adicional para quatro pessoas jogarem juntas.
As quatro portas de controle estavam diretamente na frente do console.
Parece uma característica banal hoje.
Naquela época, ajudou a transformar o N64 em uma máquina especialmente forte para multiplayer local.
Mario Kart 64.
GoldenEye 007.
Super Smash Bros.
Mario Party.
Perfect Dark.
F-Zero X.
WCW/nWo Revenge.
WWF No Mercy.
Bastava ter controles suficientes.
E talvez uma televisão grande o bastante para enxergar alguma coisa quando a tela fosse dividida em quatro.
4. GoldenEye provou que FPS também funcionava no console
Antes de Halo ajudar a redefinir os jogos de tiro nos consoles, outro título já havia feito muita gente passar tardes inteiras olhando para quatro quadradinhos na mesma televisão.
GoldenEye 007.
O jogo da Rare baseado no filme de James Bond acabou se tornando muito maior do que uma simples adaptação cinematográfica.
Sua campanha combinava ação com objetivos, furtividade e diferentes níveis de dificuldade.
Mas foi o multiplayer que criou algumas das memórias mais fortes.
Quatro jogadores.
Uma televisão.
E uma regra que provavelmente precisava ser dita antes de qualquer partida:
não vale olhar para a tela do outro.
Naturalmente, todo mundo olhava.
5. Zelda: Ocarina of Time encontrou uma solução para o combate 3D
Levar Mario para três dimensões já havia sido complicado.
Fazer o mesmo com Zelda apresentava outro problema:
como lutar contra inimigos em um ambiente tridimensional sem perder completamente a noção de direção?
The Legend of Zelda: Ocarina of Time popularizou uma solução brilhante: o Z-targeting.
Ao travar a mira em um inimigo, Link podia manter sua atenção nele enquanto se movimentava lateralmente, atacava, defendia e recuava.
Parece simples olhando de 2026.
Em 1998, era uma resposta extremamente elegante para um problema novo.
E Ocarina of Time não marcou apenas pelo combate.
Hyrule Field dava uma sensação de escala impressionante.
Existiam dia e noite.
Link crescia.
A música fazia parte das próprias mecânicas.
E havia aquela primeira saída da floresta de Kokiri para um mundo que parecia gigantesco.
Poucos momentos representam tão bem aquela geração.
6. Os cartuchos sobreviveram em plena era dos CDs
PlayStation utilizava CDs.
Sega Saturn utilizava CDs.
A Nintendo escolheu continuar com cartuchos.
A decisão trouxe vantagens como tempos de acesso muito rápidos e resistência física da mídia.
Mas também significava menor capacidade de armazenamento e custos maiores de produção.
Essa limitação teve consequências importantes.
Um dos exemplos históricos mais conhecidos é Final Fantasy VII, que acabou chegando ao PlayStation em vários CDs enquanto a Square abandonava o Nintendo 64 para aquele projeto.
A Nintendo perderia parte do apoio de grandes desenvolvedoras durante essa geração.
Por outro lado, os cartuchos também viraram parte da personalidade do console.
Quem teve um Nintendo 64 provavelmente lembra até hoje do ritual de encaixar aquela enorme fita na parte superior da máquina.
E talvez de soprar o cartucho quando alguma coisa não funcionava.
Não adiantava?
Esse detalhe nunca impediu ninguém de tentar novamente.
7. A Rare viveu uma fase espetacular no Nintendo 64
É impossível contar a história do N64 falando apenas da própria Nintendo.
A Rare foi fundamental para a identidade do console.
- GoldenEye 007.
- Banjo-Kazooie.
- Banjo-Tooie.
- Perfect Dark.
- Diddy Kong Racing.
- Jet Force Gemini.
- Donkey Kong 64.
- Conker’s Bad Fur Day.
É uma sequência impressionante de jogos associados a uma única desenvolvedora dentro da mesma geração.
Alguns exploravam caminhos que a própria Nintendo provavelmente jamais seguiria.
Conker é o exemplo mais óbvio.
O simpático esquilo que parecia protagonista de um jogo infantil acabou estrelando uma aventura recheada de violência, palavrões e humor adulto.
8. O Rumble Pak fez o controle tremer — literalmente
Em 1997, Star Fox 64 chegou acompanhado de um acessório curioso:
Rumble Pak.
Ele era encaixado atrás do controle e fazia o joystick vibrar de acordo com o que acontecia no jogo.
Explosões, impactos e colisões deixavam de ser apenas acontecimentos visuais.
Você podia senti-los nas mãos.
A vibração acabaria se tornando praticamente um padrão da indústria.
Hoje temos controles com motores avançados, gatilhos adaptáveis e diferentes tipos de resposta tátil.
Naquela época, sentir o controle vibrando durante uma batalha espacial já parecia tecnologia do futuro.
9. Pokémon Stadium transformou o sonho do Game Boy em algo enorme
Pokémon explodiu no final dos anos 1990.
E então surgiu uma ideia que parecia impossível para muitas crianças:
ver seus próprios Pokémon do Game Boy lutando em 3D na televisão.
Com o Transfer Pak, Pokémon Stadium permitia utilizar criaturas das versões portáteis dentro do jogo do Nintendo 64.
Era difícil explicar a sensação para quem não viveu aquela época.
Aqueles pequenos sprites de Game Boy ganhavam modelos tridimensionais, animações e batalhas em uma televisão.
Pokémon Stadium ainda trouxe uma coleção de minigames que, para muita gente, acabaram se tornando tão memoráveis quanto as próprias batalhas.
E quem nunca tentou comer mais sushi do que os amigos controlando Lickitung provavelmente perdeu uma das experiências mais estranhas daquela geração.
10. Alguns dos maiores jogos da Nintendo nasceram ou mudaram ali
Talvez esse seja o legado mais importante.
O Nintendo 64 não teve a maior biblioteca daquela geração.
Também não venceu o PlayStation em vendas.
Mas vários jogos lançados nele estabeleceram ideias que continuam aparecendo nas franquias atuais.
Super Mario 64 mostrou um caminho para Mario em 3D.
Ocarina of Time fez o mesmo por Zelda.
Mario Kart 64 levou a série para pistas tridimensionais e popularizou seu multiplayer para quatro jogadores.
Star Fox 64 consolidou personagens, vozes e ideias que ainda associamos à franquia.
Mario Party nasceu no Nintendo 64.
E Super Smash Bros. também começou ali, antes de se transformar em uma das maiores séries da Nintendo.
Até hoje é possível perceber pedaços daquele videogame nos consoles modernos.
O próprio Nintendo Switch Online mantém uma biblioteca de títulos do Nintendo 64 disponível através do plano Pacote Adicional, permitindo que uma nova geração descubra alguns desses jogos sem precisar procurar um console de três décadas atrás.
E talvez seja justamente isso que torne o aniversário tão curioso.
O Nintendo 64 envelheceu.
Os polígonos ficaram quadrados.
As texturas ficaram borradas.
Alguns controles parecem muito mais difíceis do que lembrávamos.
Mas as ideias por trás de muitos daqueles jogos continuam surpreendentemente atuais.
Trinta anos depois, ainda estamos jogando coisas que o Nintendo 64 ajudou a ensinar à indústria como fazer.

